terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Educação e a Felicidade


Educação–liberdade–felicidade, sem dúvida, deve ser o caminho de todos nós, mas é preciso compreender de forma mais abrangente e profunda cada passo dessa trajetória. Essa é a reflexão que proponho aqui.

Primeiramente, confunde-se instrução com educação. Huberto Rohden (filósofo, educador e teólogo catarinense18931981), ao ser questionado em entrevista sobre o que pensava da Educação no Brasil, afirmou que “não existe Educação em nenhum país.” “...Em vez de Educação, deveriam chamar de Instrução: Secretaria da Instrução, Ministério da Instrução, etc.” (Educação do Homem Integral).
O que se oferece no currículo das escolas, de origem das secretarias e
dos ministérios, não pode ser entendido por educação. Em outras palavras,
a formação acadêmica, por si mesma, não dá ao homem a educação, nem o torna bom, pois encontramos homens com variados diplomas e títulos que não são educados; pessoas cultas, eruditas que demonstram em seu comportamento e caráter a falta da mais elementar educação. Paradoxalmente, temos a satisfação de conhecer pessoas simples, algumas socialmente excluídas, outras até analfabetas, sem nenhuma “instrução”, que são educadas até a beira da sabedoria.

A educação resulta de um processo de transformação, individual, que
se inicia com a aceitação, pela pessoa, das ideias a que tem acesso e que, assimiladas, com o tempo e sua prática repetitiva tornam-se hábitos, parte integrante de sua personalidade e seu caráter.  É assim que vai construindo sua moral e sua ética, que norteiam suas atitudes e seu comportamento.

Ainda com base no que nos diz Rohden, a partir do momento em que você conhece algo, você se liberta dele. Então podemos, realmente, afirmar que
a “educação” ou instrução (conhecimento) leva-nos à liberdade. Isso nos induz a incluir em nossa reflexão o autoconhecimento. A partir dele, nos libertaremos de nossos medos, de nossas incertezas e inseguranças. Aliás, não é esse o meio de que a psicanálise se utiliza para a “cura”?

Esse pensamento nos remete ao que nos disse outro filósofo: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará.”

Continuando com Rohden, a educação só acontecerá com seu direcionamento para a autorrealização, a plena realização da natureza humana em sua totalidade. Nesse sentido, podemos também afirmar que a felicidade depende da educação.

Sabemos que a instrução, pela escola/ensino formal, pelos cursos de complementação, congressos, encontros, grupos de estudos e outros meios é fundamental para a aquisição de conhecimento, mas sabemos também que outras áreas que lidam com o pensamento e o comportamento, como a filosofia, a psicologia, e mesmo a religião, são imprescindíveis para a consolidação do conhecimento e a conscientização necessária para a educação.

Outro ingrediente atribuído à educação, apregoado pelas religiões, especialmente pelo Cristianismo, é o amor. Na verdade, ele sintetiza tudo
o que constitui a educação e está além dela. A educação é um estágio no desenvolvimento que leva ao aprendizado do amor.

Amar, segundo os sábios gregos, é praticar as virtudes (para Platão e Aristóteles, o homem não pode ser feliz praticando o mal; a felicidade está associada às ações virtuosas).

            Então, estendemos o caminho para a felicidade:
            Educação–liberdade–amor–felicidade.

                                                                                     Luiz Teodoro
                                                                                     Julho de 2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Colecionador de Sorrisos


Sentado em um canto – que lhe estivera disponível porque embarcou no início da linha –, assistia ao diálogo de seus pensamentos, que discutiam a transformação que poderia ocorrer em nosso mundo se tivéssemos maior consciência sobre nós mesmos e sobre o sentido da vida.
Assim como ele, a maioria dos passageiros estava absorta em seus pensamentos, cada qual viajando em seu universo mental, relembrando fatos de sua história ou buscando soluções para suas dúvidas e projetos.
Alguns, ensimesmados, olhavam o vazio, talvez voando entre as nuvens de suas preocupações; outros mantinham os olhos fechados, vencidos pelo cansaço e pelo sono. Uns poucos conversavam futilidades e muitos estavam abduzidos pelo aparelho celular, fato tão comum em todo lugar hoje em dia.
            Como sempre fazia, perscrutava cada rosto no vagão, procurando identificar em suas expressões o que se passava no íntimo das pessoas. O foco maior de seu interesse, todavia, era o sorriso. Toda vez que via alguém sorrindo, ficava encantado com a fisionomia do rosto, o brilho nos olhos, o desenho dos lábios, mas especialmente com algo que brotava da alma e se espalhava, flutuante, inebriante, formando a sua volta um halo de luz invisível, contrastando com a tônica do ambiente.
            Não é qualquer sorriso que produz tais efeitos. Não são os sorrisos frios, quase mecânicos, presentes nas relações profissionais ou entre colegas, nas quais não há confidência, e denotam conveniência e superficialidade. Também não são aqueles sorrisos compulsórios, que são forçados a aprovar sem consentir, testemunhando submissão ou bajulação. Nem os sorrisos que brotam da amabilidade dos amigos, que sempre mantêm alguma reserva. Muito menos as gargalhadas ruidosas, que dissimulam a timidez ou a autoafirmação, a arrogância ou a vaidade.
            Observava que em certas relações românticas há momentos de relativa entrega, mas seus sorrisos se mesclam à volúpia, a libidinagem. É que essas relações têm muito do fisiológico, que nublam o sublimado da alma, escondendo os lampejos do amor – como o diamante ainda não lapidado, que não consegue refletir o brilho puro e intenso. Diferente do que acontece com os casais mais maduros: à medida que seus corpos vão se tornando marcescíveis, afrouxam as barreiras e liberam mais fácil e naturalmente os arroubos amorosos. Vale a pena contemplar o que querem dizer a serenidade e a meiguice de seus gestos, seus olhares!
Via no sorriso franco e espontâneo uma manifestação da alma pura, que normalmente fica recôndita, constringida pela carga de interesses e necessidades materiais. Era esse extravasamento do espírito que o atraía sobremaneira, e que ele queria apreender, reter e prolongar indefinidamente, mas que escapava e se diluía em instantes, cedendo lugar às máscaras da rotina. Então, o desejo de compreender o fenômeno e desfrutar essa sensação de pureza, que lhe transmitia um misto de alegria, de êxtase, tornou-se uma obsessão e fez dele o Colecionador de Sorrisos.
Naquele dia a predominância era de uma viagem qualquer, não lhe oferecendo significativos elementos para colheita.
Alguns sorrisos, atendendo ao hábito, cumpriam a função de simpatia; mesmo não preenchendo os requisitos do objeto da busca, eram agradáveis, pois favoreciam o clima da boa convivência.
O Colecionador de Sorrisos sentia uma certa dose de tristeza ao ver feições carrancudas, expressões impacientes e, lamentavelmente, os olhares indiferentes, alienados, como se não tivessem vida.
Salvou-lhe o dia a mamãe com o filho no colo. Valeu-lhe o percurso das quatro estações, até seu desembarque. O olhar sereno endereçava ao menino indizível ternura, doce, envolvente. Os gestos tinham só carinho e proteção. O sorriso... ah!... o sorriso dizia tanto... palavras sem som, sem forma, sem fórmula, mas que falavam tudo, como uma explosão de carícia, de declarações, de sentimentos e sensações. De amor. De puro amor!
Sentisse a criança toda a força daquela vibração, não caberia em si. Não fossem as camadas de proteção com que a Natureza sábia a reveste, escaparia de seu corpo frágil e volitaria aos gritos de alegria para as alturas!
Bendita maternidade! Bendita oportunidade de provar que a felicidade é amar!


                                                           Luiz Teodoro
                                                             22-8-2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O jovem e a maioridade


Hoje, eu admito ter mudado um pouco meu pensamento a respeito dessa discussão sobre a maioridade. Concordo que não é justo toda a sociedade ser refém de perigosos assassinos pelo simples fato de terem eles essa ou aquela idade.
Como de outras vezes e em outras esferas, acabamos por ficar imobilizados pela própria lei que criamos. Agora se discute se diminuímos para 14 ou 16 anos a maioridade (Constituição) ou se estendemos o limite de reclusão dos menores para 10 anos (ECA). Para o primeiro caso, já se fala em inconstitucionalidade, acenando como se fosse uma barreira intransponível. Ora, as leis são criadas por nós (nossos representantes) e temos a autonomia, o direito, de mudá-las quando acharmos que elas não atendem mais a nossas necessidades. Se não for possível por meio de uma PEC, que seja por plebiscito, instrumento o mais legítimo, pois toda a sociedade pode manifestar sua vontade diretamente.
Nessa discussão toda, porém, deve-se tomar muito cuidado, porque qualquer que seja a opção adotada, de forma alguma irá resolver nosso problema se não estiver apoiada por uma série de outras medidas, como reforma do Código Penal, preparação adequada da força policial, aperfeiçoamento do sistema jurídico, reforma do sistema penitenciário – o que iremos fazer com as crianças e os jovens apreendidos. E, ainda assim, todo esse conjunto não passará de solução imediata, paliativa. Porque continuaremos com a sementeira produzindo, em grande escala, novos marginais e bandidos, nas favelas, sob as pontes, nas ruas, tanto pela falta de sensibilidade e de investimento maciço do poder público na educação, na infraestrutura, na saúde, na integração social; quanto pela indiferença da sociedade em relação a sua responsabilidade com todas as crianças, na família, na vizinhança, na rua, onde quer que elas estejam. E, numa análise mais abrangente, faz-se necessária e também urgente a revisão de todos os nossos códigos e leis, que envolvem o conjunto de deveres e responsabilidades dos adultos (maior idade), pais, com relação à natalidade, à estrutura familiar, à educação e ao acompanhamento de seus filhos.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Relembrando...


Busca no tempo

Estudo e reflexão como base de construção da realidade existencial na busca do desenvolvimento integral do ser, integrando-se ao meio nas dimensões pertinentes a sua situação cósmica.

A libertação dos fundamentos e dos princípios que até o momento nortearam o processo evolutivo passa a constituir atitude essencial e primeira a quem visa ampliar o campo de percepção do Universo natural onde existe, como constituinte e participante.

Conscientizar-se dos valores reais daqueles princípios e fundamentos, em vez de desprezá-los simplesmente – a despeito da real impossibilidade de fazê-lo – dentro do processo de assimilação e aprendizado, deve ser a iniciativa do indivíduo equilibrado e já desperto pelo magnetismo do Poder Criador, com as sementes do saber em germinação.

A busca requer um selecionamento com critério e discernimento, distantes do preconceito e dos ditames do tabu, em meio à infinidade de informações, descobertas, doutrinas filosóficas e conceitos religiosos, evoluções científicas e metafísicas, campo fértil e rico de preciosidades aguardando o hábil buril ou cinzel para a estética e o brilho das pérolas de luz.

Ser capaz de viver em equilíbrio no campo de forças que é o habitat de cada um e, ainda mais, fora dele, nas oportunidades de expansão no espaço e no pensamento, demanda aprendizado e adaptação. Isto para quem vive passivamente, pois para o ser criativo, dinâmico, pesquisador, descobridor – características próprias do homem – o processo extrapola os limites da adaptação e leva-o a utilizar os recursos a seu dispor, por meio da percepção e da análise, exercícios de aplicação de teorias e conceitos, formulação de leis e normas de comportamento que o farão evoluir nos variados campos de abrangência do espírito: a moral, a ética, a ciência, a religião.

O princípio fundamental é desenvolver o método da adaptação, do aprendizado e da evolução. No período que compreende a infância e a adolescência, o homem sofre este processo naturalmente, sob as influências do meio físico, social e psíquico, numa interação da própria personalidade espiritual definida para a nova experiência na matéria, ocorrendo a troca constante dessas influências na delienação da personalidade e do caráter resultantes.

Luiz Teodoro – 1994 (num exercício com as ideias)



Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? 

Caminhando lentamente, movido pelo impulso de ir sempre em frente.
De modo espontâneo ou, quase sempre, na compulsão de forças desconhecidas, vencido ou vencedor, paulatinamente se vai construindo a história.

Sem uma situação definida no tempo e no espaço, quantas vezes não foi preciso voltar, perscrutando referências nas lucubrações e reminiscências, ou na própria história: ciência, religião, filosofia, qualquer instrumento que deixasse antever a origem para descortinar o fim.

No misto de curiosidade e medo, mergulhando no desconhecido, da observação à sensação, nem sempre eram as respostas, mas o desequilíbrio que vinha retardar a marcha. De engano a engano, acertos raros, ansiava pela claridade exterior, na aventura de conhecer, esquecendo, contudo, de acender a própria luz.

O Universo sem limites, certamente, contém aqueles que nos precederam e que foram mais bem-sucedidos. Deles se pode absorver o brilho de saber e conhecer. Empreender a viagem ao interior, sob o clarão da luz que desprendem, enseja
probabilidade maior de consciência.

É preciso estimular o intelecto a partir da teoria, da prática e da estética, investigando no uso da razão em harmonia com o sentir, sintetizando o equilíbrio de ambos, destilando a sabedoria, sob a tutela da espiritualidade – eis a fórmula para equacionar os enigmas da realidade e responder ao anseio de viver.

Mas o ser não é só. Interage, influencia e reage. Informa-se, se comunica e se forma. Ações individuais e coletivas que requerem sinergia e harmonia com a regência cósmica.

O ego e o alter, vencendo a antagonia, devem convergir para o equilíbrio do indivíduo e o Todo. O indivíduo no Todo.

Devo seguir. Participando. Dando e recebendo. Trabalhando e construindo. Errando e acertando. Investigando e conhecendo. Servindo e amando. Sempre. Até que consiga fechar o círculo, unindo o princípio e o fim. E ser feliz.

                              Luiz Teodoro – São Paulo, 20 de março de 1998.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Poesias

Em algum lugar...


Nasceu pura
e se fez bela.
Buscou a luz
e se tornou sábia.
Aprendeu, ensinou.
Nunca fui tão amado
e nunca amei tanto!
Mas... muito jovem partiu.

    Tateei não sei quantos
    corpos, até mais perfeitos,
    com o olhar.
    Busquei em beijos ardentes
    e sondei nos mais profundos
    desejos, laços e afetos.
    Conquistei e me entreguei.
    Mas... não encontrei você.

Indefiníveis emoções
sentia a seu lado.
Imensuráveis o carinho,
a ternura, a gratidão.
Incontrolável o desejo
de amá-la de toda forma,
de todo eu, em todo o tempo,
em todo lugar.

    Vasculhei com tristeza
    as silhuetas de montanhas,
    até onde ia o pensamento.
    Vislumbrei-a na ponta da praia,
    como vê a fonte cristalina
    o sequioso no deserto.
    Busquei-a na multidão,
    recriei-a na solidão.

Você me completava.
Sentia-me feliz
por realizar-lhe
todos os desejos.
O mundo era perfeito:
riqueza, poder, o céu,
nada importava.
Apenas amá-la.

    Mergulhei nos mais
    profundos olhares,
    reconstituí-a por trás
    dos mais belos sorrisos.
    Percorri paisagens, bares,
    conquistei posição e riqueza,
    mudei crenças e ideais,
    mas... lá não estava você.

Constante paz dia a dia,
só a ansiedade
se estava ausente.
Nada, porém, impedia
voltar célere, contente,
pois que nada, ninguém,
além da saudade,
entre eu e você havia.

    As forças já se esvaem,
    em breve também eu
    terei que partir.
    Mas, se a vida nem a morte
    me devolvem você,
    nascerei de novo,
    quantas vezes for,
    e um dia vou tornar a vê-la.

    (Luiz Teodoro - 26/11/04)



Vamos viver!


Uma loucura dizer
que sou louco por você.
Uma doença querer
que você me faça feliz.
Sem você a vida segue,
mesmo que eu queira
o que você não quis.

Nada depende de nós, minha cara!
Sem você eu respiro, ainda vivo.
Sem você o mundo não para.
O tempo, o espaço, o riso, o lamento,
luta, sucesso, guerra, tormento.
Nada de Sol, a Terra, o mar, a Lua,
tudo continua...

Mais ainda o prazer de ter
e a alegria de ser.
Minh’alma busca, incessante,
conhecer a paz de saber.
As flores, as cores;
os desejos, as dores
acaso terminam?

Mas com você... ah, com você!
eu quero lutar, eu quero vencer.
Quero mais: sou forte, sou capaz!
Se não somos um, somamos dois.
Se não temos tudo, podemos depois.

Deixe o sonhador com os sonhos,
a fantasia com seus delírios.
Quero é tatear seu corpo,
Quero a demasia de querer e fazer.
Quero ouvir, dizer, tocar e ver.

Que venha pranto, tristeza e dor,
Vamos ter o sorriso franco e amor.
Vamos lutar, brincar, sofrer,
Vamos perder, ganhar, crescer.
Vamos dividir o mundo, vamos viver!

(Luiz Teodoro – setembro de 2005)


Amor secreto


Perdoe-me por insistir, depois do seu silêncio.
A fraqueza é de quem já foi subjugado pela força desse sentimento maior,
que, mais que nunca, neste momento parece me envolver e consumir por inteiro.
É noite e divago.
Olho as estrelas, distantes e solitárias como eu,
mas impassíveis e refratárias a qualquer vibração de meu ser.
Ao contrário da Lua, bela e indiscreta: ela afaga e parece compreender.
Os pensamentos vagam, indefinidos, na busca de entender os mistérios do Infinito.

De repente, a paz, que concedia alguma trégua ao espírito há muito perturbado,
desfaz-se bruscamente.
Você surge como um raio e, antes que me desse conta, apossa-se de mim.
O corpo estremece e calor intenso o percorre todo.
A sua imagem, bela, mas passiva, atrai para si toda a atenção.
Sumiram as estrelas, a paz da noite, os ruídos da avenida.
Minha mente agora é só você. Não há mais espaço para nada.
Só a Lua parece ainda compreender e fica a observar as reações dentro de mim.

Esgotaram-se as forças de resistir.
Tenho que deixar o terraço e buscar socorro em outro afazer.
Ligo a música, alto, procuro a distração.
Mas você não permite.
Parece até escolher a melodia, que me subjuga ainda mais.
Vencido, ponho-me então a escrever.
Se outro tempo fora, e você livre, empenharia todos os recursos a conquistá-la
e, quem sabe, ser objeto dos mesmos sentimentos e desejos, tal como você é.

Mas não devo teimar ante a insistência do silêncio.
Prosseguir com o segredo, partilhado tão-só com a amiga fiel e inseparável,
a solidão. É o que devo fazer?

       O doce beijo.

(Luiz Teodoro – 2001)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Papai Noel existe!


Sob o símbolo do bom velhinho, Papai Noel existe dentro de cada um de nós. 
Ele é um pouco folgazão: por vezes hiberna o ano todo e só desperta nesta época do ano; por outras, fica se aventurando por aí, divertindo-se sozinho, e quando o ano termina ele aparece! 
No entanto, é ele que desperta a alegria de nossos colegas, o contentamento de nossos companheiros, o sorriso de nossos filhos, a retribuição a nossas gentilezas. Ele tem um saco repleto de lindos presentes, para todos os gostos e situações, e mágico, nunca se esgota. 
Uma pena que seja tão descuidado e voluntarioso! Quando quer, é muito altruísta: generoso, bom, gentil, educado, solidário, amigo, amoroso.
Precisamos aproveitar agora que ele está presente e lhe fazer um pedido especial. Pedir a ele que não desapareça mais. Dizer-lhe que nós precisamos dele aqui, todos os dias, pra tornar nossa vida e nosso mundo mais alegre, mais feliz. Durante o ano inteiro tem muita gente triste, tem gente solitária, tem gente carente, tem gente sem rumo, tem gente abandonada...
Vamos sugerir a ele que torne todos os dias como o Natal. Além de todo o clima de solidariedade e alegria, ele vai distribuir presentes e dizer também “feliz dia!”, “feliz trabalho!”, “feliz emprego!”, “feliz escola!”, “feliz educação!”, “feliz acolhimento!”, “feliz tanta coisa!”...
Não exilemos mais o Papai Noel na fria Lapônia de nosso egoísmo. Vamos fazer que ele permaneça conosco para sempre, extrovertendo sua simpatia e generosidade.
Nestas próximas festas,
comemore bastante,
divirta-se muito,
reúna toda a família,
curta suas amizades,
faça uma ceia de rei,
enfeite sua árvore como ninguém,
torre seu décimo-terceiro com presentes...
...mas o seu melhor presente, o mais valioso, não o esconda em nenhuma embalagem, nem o coloque debaixo da árvore, reparta-o com todos... os seus melhores sentimentos.
Faça o mais feliz Natal e seja + FELIZ!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Criança – o elo esquecido


Muitas vezes acreditamos que a solução para nossos problemas está fora de nosso alcance, inacessível, e nos sentimos impotentes, vencidos.
É a pressa, o acúmulo de coisas a fazer a cada dia, as pendências,
as contas... que nos tornam estressados e nos impedem a calma para pensar e encontrar novos caminhos.
Então nos conformamos e deixamos acontecer. Não assumimos
o controle de nossa vida. “Deixamos a vida nos levar.”
Assim acontece também com nossas graves questões sociais, que implicam segurança, educação, cultura. Contemplamos uma paisagem social desarmoniosa, com sérios desníveis de cultura e segregação das classes mais pobres, convivemos diariamente com altos índices de violência, medo e desconfiança. Vemos isso na rua, assistimos na TV, ouvimos no rádio, nas rodas de conversa.
Os meios de comunicação de massa, com seu modelo de jornalismo sensacionalista, têm enorme parcela de responsabilidade na construção e na manutenção desse quadro negativo em nossa mente. A impressão que nos passam é de que a violência caminha para o terror, a insegurança toca os limites da paranoia e cada dia mais se consolida a descrença em um futuro melhor.
No entanto, essa nossa percepção do mundo e da vida está errada, distorcida. Nossos sentidos se habituaram aos acontecimentos negativos e construímos com suas impressões a imagem desalentadora que ocupa nossa mente e interfere em nossas emoções.
É certo que ainda não corrigimos diversas falhas e desequilíbrios em nossos sistemas social, político e econômico, não superamos o atavismo carregado de velhos conceitos e vícios que nos impedem a aquisição de novos valores e um crescimento mais acelerado. Mas já acumulamos muitas conquistas, nas esferas do conhecimento, da moral e da ética, que nos capacitam para grandes transformações. Isso se reflete nas instituições de direito atuais, voltadas para a criança, o adolescente, a mulher, o idoso...
E dispomos de inteligência, criatividade e os instrumentos para promover essas mudanças. Talvez o que nos falte sejam a vontade e a decisão para isso.
Uma barreira monumental, todavia, nos tolhe a vontade e a iniciativa de mudar nossa vida e a atmosfera social a nossa volta: o individualismo. Este é o nosso inimigo número 1. E afeta a cada um de nós, como pessoas comuns, e a todos que assumiram o compromisso de cuidar de nosso bem-estar e progresso, que são os políticos, os gestores, os administradores, nossos representantes no “poder”.
Tivessem eles, de verdade, o espírito de servir e empregassem todo o seu potencial de conhecimento e experiência no cumprimento de sua responsabilidade com a sociedade, nossa realidade seria bem outra, e sem dúvida muito melhor.
            De igual modo, nossos intelectuais, acadêmicos, religiosos, associados a instituições de Direito, Sociologia, Psicologia, Educação e tantas outras áreas do conhecimento, da pesquisa e do saber, nossos líderes nos diversos setores sociais, quanto poderiam fazer se estivessem norteados pelos ideais de desenvolvimento e progresso coletivo!
E, especialmente, se cada um de nós, em vez de apenas manifestar a indignação e críticas a essa situação ruim que constatamos, tivesse a iniciativa de contribuir para a melhoria que desejamos, imagine o surpreendente resultado! Atitudes, no modo de pensar, de ver e de agir, nas relações em família, no trânsito, na empresa, na escola, na rua...
Contudo, para a transformação dessa paisagem social, a médio e longo prazo, é imprescindível nossa atenção e investimento amplo e contínuo num setor básico e fundamental: a infância.
Tudo começa na infância, até mesmo uma ideia.
Nossa história, o que somos, o que fizemos, teve um princípio, uma infância. A partir dela, vivemos a aventura de experimentar, conhecer, amadurecer e saber.
Parece que nos esquecemos de que, na estrutura da sociedade, a família é a fundação, de onde todos nós viemos. E é na infância que recebemos os princípios, a educação, as orientações que vão nos guiar ao longo de toda a nossa vida. As famílias são as células que compõem toda a nossa organização social, e sua razão de ser.
Se uma única família não tiver as condições mínimas necessárias para oferecer a seus filhos esses princípios e orientações para seu desenvolvimento, toda a sociedade será afetada e terá que suportar as consequências advindas das distorções no caráter e na personalidade dessas crianças quando adultos e no pleno exercício de seu livre-arbítrio.
Nós os consideramos responsáveis, enquanto “maiores de idade”, emancipados, mas responsáveis somos todos nós: a família, a escola, a comunidade, o Estado. Todos fomos omissos, ou agimos mal, em cada fase e em cada setor por onde eles tenham passado.
Mesmo assim, esses indivíduos, então já feitos homens e mulheres, vão constituir novas famílias e oferecerão a seus filhos apenas aquilo que têm!...
Imaginemos agora milhares, milhões de famílias nessa situação, sem os recursos mínimos, materiais e morais, para a educação de suas crianças!
É por essa razão que assistimos hoje a esse cenário de vícios, crimes, degradação e exclusão social.
E de que modo a sociedade, que somos nós e nossos representantes, reage a isso? Penalizando essas pessoas, condenando-as ao isolamento, à prisão, à promiscuidade e, muitas vezes, à morte.
Perguntemos, nas rodas de conversa, o que as pessoas pensam sobre o que se deveria fazer com as crianças, adolescentes e adultos que vivem pelas ruas e favelas, envolvidos com as drogas, o tráfico e os crimes. Com certeza muitos de nós já ouviram respostas como “O certo é matar todo mundo!”
Uma frase que ouvi do escritor e orador Divaldo Pereira Franco sintetiza bem esse paradoxo. Dizia ele que a adoção da pena de morte pela sociedade é o atestado de sua própria falência.
É um terrível engano pensar que uma criança abandonada na rua, um mendigo na calçada ou uma família socialmente excluída numa favela nada tem a ver conosco. Ao contrário, tem tudo a ver com cada um de nós e com a sociedade inteira!
De uma maneira ou de outra, pagaremos o preço por nossa omissão, indiferença e exclusão. Por exemplo, a criança deixada hoje abandonada à própria sorte poderá ser amanhã o assaltante que nos surpreenderá no farol, ou que estará aliciando nossos filhos nas vizinhanças da escola, explodindo caixas eletrônicos, realizando sequestros relâmpagos... Ou seja, poderão ser os autores e os protagonistas dos noticiários de violência que ouvimos diariamente.
Quando são presos, o alto custo para sua manutenção é debitado em nossa conta de impostos – além de terem sua situação agravada pela estrutura ineficiente de nosso sistema penitenciário; se ficam doentes, se são mortos, de qualquer modo vão gerar elevado ônus para toda a sociedade.
E suas famílias, mulheres, filhos, que destino terão?
No entanto, o anverso dessa história também é verdadeiro: tudo o que for feito para a garantia dos direitos da criança e todo o investimento em benefício de seu desenvolvimento refletirão no adulto em que ela se tornará, afetando de modo positivo sua família, sua comunidade e toda a sociedade.
A infância é uma sementeira fértil, que pode produzir bons frutos se
a cultivarmos com o necessário cuidado e carinho, ou naturalmente veremos crescer as ervas daninhas espalhando seus frutos nocivos, refletindo nossa displicência e irresponsabilidade.
O que fazer?
No âmbito do governo, políticas públicas sérias e bem planejadas, direcionadas para todas as áreas e de forma abrangente, como nutrição, saúde, educação, que contemplem a criança e a família, prioritariamente, vão prevenir a maior parte das disparidades e dramas sociais que vivemos.
No âmbito da iniciativa privada, o cumprimento da responsabilidade social pelas empresas, ONGs, federações, associações, órgãos representativos de classes, com pesquisa, planejamento e ações realmente efetivas, com objetivos e metas bem definidos, não permanecendo na defesa de seus interesses particulares nem se eximindo desse comprometimento por considerá-lo atribuição exclusiva do Estado.
No que concerne aos indivíduos, tão ou mais importantes do que essas ações governamentais e de grupos devem nossas atitudes, em todos os campos de atuação, refletir nosso caráter guiado pela ética, pela responsabilidade e pelo comprometimento com a construção de uma sociedade saudável, em que todos possam compartilhar os benefícios do bem-estar, da paz e de um futuro mais feliz.
Somente com a renúncia ao individualismo, a moderação do consumismo e da ambição, assimilando os verdadeiros princípios que regem a vida, com um comportamento consciente e a iniciativa solidária de participar e cooperar, teremos o mundo que tanto desejamos.
Luiz Teodoro – setembro de 2012