segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ainda sobre o assédio sexual


O novo assunto que há dias invadiu a mídia e as redes sociais, culminando com o vexame do IPEA admitindo seu erro na divulgação dos índices da pesquisa, ainda dá o que falar!
A despeito da pesquisa, como sempre feita por amostragem, ouvem-se desencontradas opiniões e das mais variadas fontes.
Isso é bom, à medida que leva à discussão um tema pertinente às relações sociais, com implicação em todas as esferas que englobam o comportamento e o processo de educação, seja familiar, na socialização ou na formalidade acadêmica.
O que causa estranheza, no entanto, é ouvir digressões de pessoas que ocupam posição de destaque no cenário da educação e de formadores de opinião, dos quais sempre se espera elevado grau de discernimento e equilíbrio.
De repente, o tema passou a ser tratado de modo isolado, como se fosse o único problema que afeta nossa sociedade, sem qualquer conexão com o estado geral de incipiência cultural e pobreza moral em que vivemos.
Talvez por causa do futebol e da religião ou da política, estabeleceram-se naturalmente dois lados, dois times, dois partidos: aquele que defende a liberdade sem limites da mulher e aquele que atribui a esse comportamento – de provocar o instinto de macho – a causa única dos assédios e da violação de direitos.
Todos têm razão e deixam de tê-la quando ultrapassam os limites do bom senso e da moderação.
O jogo da sedução sempre fez parte das relações entre os sexos, desde os remotos períodos pré-históricos, e tem acompanhado de certo modo as mudanças nos padrões éticos e morais ao longo do tempo. De modo especial, isso aconteceu proporcionalmente à conquista de liberdade das mulheres, aproximando-se da igualdade de direitos com os homens, vencendo os preconceitos e as opressões.
Entre os animais irracionais também existe o jogo da sedução, à obediência do instinto, tanto de um lado como do outro. A diferença significativa, nesse caso, é que esses animais não são dotados de inteligência, razão e sentimentos, como de emoção e afeto, respeito e amor.
A violação de direitos com o assédio, como me referia anteriormente, faz parte do estado de consciência e desenvolvimento ético-moral de nossa civilização, tendo raízes comuns com outros tipos de violência, explícitos ou não, no dia a dia de todos nós. As diversas formas de preconceito, crimes de toda espécie, corrupção generalizada, pedofilia na Igreja!?...
Hoje, não só não deixamos o carro destrancado, mas também instalamos alarme e contratamos seguro. Mesmo assim, quem já não teve o carro roubado? Em casa, além das grades, temos portão eletrônico, interfone, sensor de luz e ainda pagamos o vigia noturno. Em um restaurante, não podemos deixar bolsa, carteira ou celular afastados de nossas mãos. Não andamos na rua com maleta ou bolsa que denuncie a presença de laptop; corremos risco se sairmos com a camiseta do time, com uma mochila chamativa, iPhone, iPad, máquina fotográfica...
A explicação, a meu ver, não pode ser outra senão a da semelhança que mantemos com as outras classes do reino animal. Não nos distanciamos ainda bastante no processo evolutivo para termos o domínio das forças instintivas e a sublimação dessas energias para o amor, síntese de todas as virtudes, contemplação plena de todos os direitos e deveres.
Ao contrário, usamos os recursos da inteligência e do livre-arbítrio para melhor alimentar nosso orgulho e egoísmo já exacerbados! A busca insaciável do prazer fisiológico!...
Se, ao menos por instantes, deixássemos de ser hipócritas, nos perceberíamos mais irracionais do que inteligentes e sensatos.
Com que propósito a mulher subestima a boa aparência, a elegância, a delicadeza, a simpatia, a educação e se expõe com seminudez, roupas coladas, transparentes, posturas e insinuações provocantes? Por que o apelo de forma acintosa ao instinto de macho no homem em vez da conquista de um companheiro, que compartilhe a vida, que a respeite e a veja como mulher e não apenas como fêmea? Acaso a feminilidade natural perdeu seu poder de atração?
Por que o homem vê a mulher como uma presa, simples objeto de prazer, como se fosse um garanhão em meio a uma manada de fêmeas no cio, em vez de uma mulher sensível e inteligente, que é capaz de lhe dar carinho, afeto e amor?
E por que ambos expõem sua intimidade a público – nas baladas, nas ruas, nas redes sociais, nas músicas –, banalizando sentimentos e sensações que são os ingredientes fundamentais de uma relação de amor?
Pensemos nisso. Sem puritanismo, sem preconceito, mas com honestidade, sinceridade e respeito próprio.

terça-feira, 18 de março de 2014

Até quando os super-heróis?...


Outro dia, estava eu no trânsito caótico da manhã, procurando colocar em ordem meus pensamentos, quando observei no carro da frente uma série de adesivos em seu vidro traseiro, e entre eles havia dois que me chamaram particularmente a atenção:
“Nas mãos de Deus” e “Propriedade de Jesus”.
Sem dúvida de que o dono do carro declarava publicamente sua fé, que até poderia ser incondicional, mas, convenhamos, ele e tantos outros fanáticos por adesivos e proselitismo de sua crença demonstram também uma fé ainda carente de racionalidade.
Na Antiguidade, o povo judeu esperava o Messias, anunciado pelos profetas como o libertador, o salvador, que foi aguardado com ansiedade por séculos e séculos como um super-herói. Sim, desses que vêm, com todos os seus superpoderes, e resolvem rapidinho todos os nossos problemas. Assim, simples, sem qualquer participação nossa, a não ser como meros expectadores. Muitos judeus ainda continuam esperando por ele.
E hoje também nós, cristãos e não cristãos, entre os arquétipos e tudo que herdamos dos judeus, alimentamos esse hábito obsessivo de sempre depositar nossas esperanças em um novo super-herói. Se um não funciona, criamos outro e outro, sucessivamente. Mesmo quando eles vêm, não os reconhecemos e não os aprovamos, porque não nos atendem do jeito que desejamos.
Em pleno século 21, nada parece ter mudado para as grandes massas religiosas. Queremos avatares na política, na economia, na sociedade. Queremos que Jesus esteja a nosso serviço, que nos arrume emprego, que pague nossas contas e conserte nossos erros, que nos torne ricos... até mesmo que seja o seguro de nosso carro.
E qual nossa contrapartida? Apenas fé. E ainda assim com a condição de que tudo realmente esteja bem, tranquilo e confortável!...

Até quando permaneceremos nessa inconsciência, na ignorância do propósito de Deus em relação a nossa vida e nosso destino?
É tão difícil entender que, atendendo a nosso sentimentalismo e caprichos infantis, Deus estaria revogando suas próprias leis?
Acaso pretendemos que Jesus e os Espíritos celestiais contrariem as leis divinas nos fazendo concessões, em conformidade com a intensidade de nossas emoções e rogos de crianças mimadas ou nossa fé chantagista?
As leis divinas, imutáveis e eternas, absolutas e justas, cujo objetivo é de nos guiar na execução do plano do Criador – de nos tornarmos perfeitos e felizes – jamais dispensariam o trabalho, o esforço, a responsabilidade, o mérito, a recapitulação e o progresso.
Meu carro é uma propriedade minha – por concessão divina, é verdade – pela qual sou responsável, desde sua manutenção até as mínimas consequências resultantes de seu uso. Só a partir daí, poderei então contar com a proteção divina, seja direta ou indireta.
O emprego deve ser uma conquista minha, com meu esforço, que começou lá na infância, com a dedicação aos estudos, com a humildade e a observância das orientações que recebi ao longo de toda a minha vida. Com o merecimento e por misericórdia, sim, poderei contar com o auxílio de Deus e seus prepostos.
E assim por diante. Sempre de acordo com a equação composta por trabalho, mérito e conquista. Justiça e Amor.
Deus é bom, mas é justo.
“Ajuda-te e Deus te ajudará.” Sem privilégios, sem chantagens, sem milagres, sem super-heróis.
Pensemos nisso.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Somos seres em construção


  Como não podemos deixar de pensar, pois nossa mente não dorme nem para, vamos tecendo um emaranhado de ideias, informações, preocupações, dúvidas e projetos, cujo arquivo vai crescendo e fugindo de nosso controle. Especialmente nos dias atuais, em plena era da comunicação, com todo o bombardeio a que somos submetidos pelos novos mecanismos tecnológicos, os apelos ao consumismo e outras necessidades que inventamos ou que nos vêm através das burocracias sociais, econômicas e políticas.
            Nessa agitação toda, nos perdemos na organização de nosso universo individual, que demanda o estabelecimento de uma ordem prioritária para o atendimento aos diversos papéis que desempenhamos nos meios em que vivemos.
            Tudo seria mais fácil se tivéssemos uma estrutura da qual fôssemos conscientes e que nos facilitasse o direcionamento de nossas ocupações mentais, atendendo a nossas necessidades e anseios, desde os aspectos fisiológicos até os que dizem respeito a nosso psiquismo, englobando as emoções, o afeto, a espiritualidade.
            No entanto, essa estrutura não existe, pelo menos qualificada o suficiente para nos proporcionar bem-estar e segurança. Por que não?
            Primeiro porque não nos treinamos para isso. Na maior parte do tempo, deixamos as coisas acontecerem e nos afetarem, postergando muitas vezes sua solução, e contraindo com isso o vírus do stress.
Depois, não definimos claramente departamentos em nosso psiquismo para onde triássemos as novas ideias e informações, ou simplesmente rejeitássemos as inconvenientes. Deixamos que se acumulem registros importantes misturados aos fúteis e, pior, aos nocivos. Com isso surgem as interferências, as interpretações equivocadas, os conflitos, constituindo uma plataforma emocional nem sempre positiva.
Entre as causas dessa situação, talvez a principal seja o fato de não nos conhecermos. Não sabemos de nossa origem, nossos objetivos, desconhecemos os motivos e a finalidade por que vivemos. Ignoramos, enfim, nossa identidade. Como, então, organizar e controlar o enorme e ininterrupto fluxo de pensamentos e informações sem esses parâmetros?
            Acumulamos na memória muitas coisas desnecessárias, lembranças ruins ou inteiramente dispensáveis. Damos importância exagerada, quase exclusiva, ao mundo objetivo, ao futuro, buscando ou esperando fora de nós a solução para nossas deficiências e a satisfação de nossos desejos, à maneira do extrativista, com insaciável sede e fome de novidades.
            Esquecemo-nos. Não nos ouvimos, não conversamos com nós mesmos, não nos abraçamos, não nos sorrimos, não nos amamos.
            A partir do autoconhecimento, nossa relação com o mundo, com as pessoas e com os acontecimentos teria forma e dimensões significativamente diferentes, e melhores.
Melhoraríamos nossa capacidade de escolha, mudando o modo pelo qual os acontecimentos nos afetam e focalizando nossa atenção naquilo que realmente nos interessa.
Cuidaríamos mais de nossa defesa, filtrando as interferências, qualquer que seja sua fonte, impedindo que nos desrespeitem. Afinal, quem cuida de nós somos nós, e é de nosso interesse preservar nossa integridade, com saúde física, mental e emocional.
Devemos investir mais em nosso desenvolvimento intelectual, moral, espiritual, aproveitando melhor o tempo e a oportunidade que a vida nos oferece para nosso aperfeiçoamento.
Felizmente, agora, a própria Medicina nos recomenda cuidados que vão além da saúde puramente física, como a leitura frequente, o lazer, os exercícios físicos e mentais. No entanto, está muito aquém de atender às múltiplas necessidades dos seres tão complexos que somos.
Estamos, porém, em construção. Pensadores, estudiosos e pesquisadores constantemente contribuem para ampliar nossa percepção de nós mesmos, e a descoberta de que obedecemos a um plano – inteligente, obviamente – cujo objetivo é nossa realização, nossa completude.
Iniciamos, assim, a base do autoconhecimento. Por enquanto, utilizamos o conhecimento objetivo para esse propósito, até que consigamos construir a estrutura acima referida, a partir da qual, saberemos aproveitar todas as fontes de informação, principalmente em nossas relações sociais, assimilando os elementos que nos satisfaçam, ao mesmo tempo em que contribuiremos para o crescimento de todos a nossa volta.
Habituemo-nos a viajar para dentro de nós mesmos, buscando conhecer nossos sentimentos, nossas qualidades, valores e conquistas. Driblemos nossa mente viciada e dominada pelos interesses imediatos do materialismo e procuremos desvendar nossos próprios segredos. Não sejamos estranhos a nós mesmos. Não nos evitemos, e sim nos aproximemos, tornando esse ser nosso melhor amigo, alguém a quem realmente amamos.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Educação e a Felicidade


Educação–liberdade–felicidade, sem dúvida, deve ser o caminho de todos nós, mas é preciso compreender de forma mais abrangente e profunda cada passo dessa trajetória. Essa é a reflexão que proponho aqui.

Primeiramente, confunde-se instrução com educação. Huberto Rohden (filósofo, educador e teólogo catarinense – 1893–1981), ao ser questionado em entrevista sobre o que pensava da Educação no Brasil, afirmou que “não existe Educação em nenhum país.” “...Em vez de Educação, deveriam chamar de Instrução: Secretaria da Instrução, Ministério da Instrução, etc.” (Educação do Homem Integral).
O que se oferece no currículo das escolas, de origem das secretarias e
dos ministérios, não pode ser entendido por educação. Em outras palavras,
a formação acadêmica, por si mesma, não dá ao homem a educação, nem o torna bom, pois encontramos homens com variados diplomas e títulos que não são educados; pessoas cultas, eruditas que demonstram em seu comportamento e caráter a falta da mais elementar educação. Paradoxalmente, temos a satisfação de conhecer pessoas simples, algumas socialmente excluídas, outras até analfabetas, sem nenhuma “instrução”, que são educadas até a beira da sabedoria.

A educação resulta de um processo de transformação, individual, que
se inicia com a aceitação, pela pessoa, das ideias a que tem acesso e que, assimiladas, com o tempo e sua prática repetitiva tornam-se hábitos, parte integrante de sua personalidade e seu caráter.  É assim que vai construindo sua moral e sua ética, que norteiam suas atitudes e seu comportamento.

Ainda com base no que nos diz Rohden, a partir do momento em que você conhece algo, você se liberta dele. Então podemos, realmente, afirmar que
a “educação” ou instrução (conhecimento) leva-nos à liberdade. Isso nos induz a incluir em nossa reflexão o autoconhecimento. A partir dele, nos libertaremos de nossos medos, de nossas incertezas e inseguranças. Aliás, não é esse o meio de que a psicanálise se utiliza para a “cura”?

Esse pensamento nos remete ao que nos disse outro filósofo: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará.”

Continuando com Rohden, a educação só acontecerá com seu direcionamento para a autorrealização, a plena realização da natureza humana em sua totalidade. Nesse sentido, podemos também afirmar que a felicidade depende da educação.

Sabemos que a instrução, pela escola/ensino formal, pelos cursos de complementação, congressos, encontros, grupos de estudos e outros meios é fundamental para a aquisição de conhecimento, mas sabemos também que outras áreas que lidam com o pensamento e o comportamento, como a filosofia, a psicologia, e mesmo a religião, são imprescindíveis para a consolidação do conhecimento e a conscientização necessária para a educação.

Outro ingrediente atribuído à educação, apregoado pelas religiões, especialmente pelo Cristianismo, é o amor. Na verdade, ele sintetiza tudo
o que constitui a educação e está além dela. A educação é um estágio no desenvolvimento que leva ao aprendizado do amor.

Amar, segundo os sábios gregos, é praticar as virtudes (para Platão e Aristóteles, o homem não pode ser feliz praticando o mal; a felicidade está associada às ações virtuosas).

            Então, estendemos o caminho para a felicidade:
            Educação–liberdade–amor–felicidade.

                                                                                     Luiz Teodoro
                                                                                     Julho de 2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Colecionador de Sorrisos


Sentado em um canto – que lhe estivera disponível porque embarcou no início da linha –, assistia ao diálogo de seus pensamentos, que discutiam a transformação que poderia ocorrer em nosso mundo se tivéssemos maior consciência sobre nós mesmos e sobre o sentido da vida.
Assim como ele, a maioria dos passageiros estava absorta em seus pensamentos, cada qual viajando em seu universo mental, relembrando fatos de sua história ou buscando soluções para suas dúvidas e projetos.
Alguns, ensimesmados, olhavam o vazio, talvez voando entre as nuvens de suas preocupações; outros mantinham os olhos fechados, vencidos pelo cansaço e pelo sono. Uns poucos conversavam futilidades e muitos estavam abduzidos pelo aparelho celular, fato tão comum em todo lugar hoje em dia.
            Como sempre fazia, perscrutava cada rosto no vagão, procurando identificar em suas expressões o que se passava no íntimo das pessoas. O foco maior de seu interesse, todavia, era o sorriso. Toda vez que via alguém sorrindo, ficava encantado com a fisionomia do rosto, o brilho nos olhos, o desenho dos lábios, mas especialmente com algo que brotava da alma e se espalhava, flutuante, inebriante, formando a sua volta um halo de luz invisível, contrastando com a tônica do ambiente.
            Não é qualquer sorriso que produz tais efeitos. Não são os sorrisos frios, quase mecânicos, presentes nas relações profissionais ou entre colegas, nas quais não há confidência, e denotam conveniência e superficialidade. Também não são aqueles sorrisos compulsórios, que são forçados a aprovar sem consentir, testemunhando submissão ou bajulação. Nem os sorrisos que brotam da amabilidade dos amigos, que sempre mantêm alguma reserva. Muito menos as gargalhadas ruidosas, que dissimulam a timidez ou a autoafirmação, a arrogância ou a vaidade.
            Observava que em certas relações românticas há momentos de relativa entrega, mas seus sorrisos se mesclam à volúpia, a libidinagem. É que essas relações têm muito do fisiológico, que nublam o sublimado da alma, escondendo os lampejos do amor – como o diamante ainda não lapidado, que não consegue refletir o brilho puro e intenso. Diferente do que acontece com os casais mais maduros: à medida que seus corpos vão se tornando marcescíveis, afrouxam as barreiras e liberam mais fácil e naturalmente os arroubos amorosos. Vale a pena contemplar o que querem dizer a serenidade e a meiguice de seus gestos, seus olhares!
Via no sorriso franco e espontâneo uma manifestação da alma pura, que normalmente fica recôndita, constringida pela carga de interesses e necessidades materiais. Era esse extravasamento do espírito que o atraía sobremaneira, e que ele queria apreender, reter e prolongar indefinidamente, mas que escapava e se diluía em instantes, cedendo lugar às máscaras da rotina. Então, o desejo de compreender o fenômeno e desfrutar essa sensação de pureza, que lhe transmitia um misto de alegria, de êxtase, tornou-se uma obsessão e fez dele o Colecionador de Sorrisos.
Naquele dia a predominância era de uma viagem qualquer, não lhe oferecendo significativos elementos para colheita.
Alguns sorrisos, atendendo ao hábito, cumpriam a função de simpatia; mesmo não preenchendo os requisitos do objeto da busca, eram agradáveis, pois favoreciam o clima da boa convivência.
O Colecionador de Sorrisos sentia uma certa dose de tristeza ao ver feições carrancudas, expressões impacientes e, lamentavelmente, os olhares indiferentes, alienados, como se não tivessem vida.
Salvou-lhe o dia a mamãe com o filho no colo. Valeu-lhe o percurso das quatro estações, até seu desembarque. O olhar sereno endereçava ao menino indizível ternura, doce, envolvente. Os gestos tinham só carinho e proteção. O sorriso... ah!... o sorriso dizia tanto... palavras sem som, sem forma, sem fórmula, mas que falavam tudo, como uma explosão de carícia, de declarações, de sentimentos e sensações. De amor. De puro amor!
Sentisse a criança toda a força daquela vibração, não caberia em si. Não fossem as camadas de proteção com que a Natureza sábia a reveste, escaparia de seu corpo frágil e volitaria aos gritos de alegria para as alturas!
Bendita maternidade! Bendita oportunidade de provar que a felicidade é amar!


                                                           Luiz Teodoro
                                                             22-8-2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O jovem e a maioridade


Hoje, eu admito ter mudado um pouco meu pensamento a respeito dessa discussão sobre a maioridade. Concordo que não é justo toda a sociedade ser refém de perigosos assassinos pelo simples fato de terem eles essa ou aquela idade.
Como de outras vezes e em outras esferas, acabamos por ficar imobilizados pela própria lei que criamos. Agora se discute se diminuímos para 14 ou 16 anos a maioridade (Constituição) ou se estendemos o limite de reclusão dos menores para 10 anos (ECA). Para o primeiro caso, já se fala em inconstitucionalidade, acenando como se fosse uma barreira intransponível. Ora, as leis são criadas por nós (nossos representantes) e temos a autonomia, o direito, de mudá-las quando acharmos que elas não atendem mais a nossas necessidades. Se não for possível por meio de uma PEC, que seja por plebiscito, instrumento o mais legítimo, pois toda a sociedade pode manifestar sua vontade diretamente.
Nessa discussão toda, porém, deve-se tomar muito cuidado, porque qualquer que seja a opção adotada, de forma alguma irá resolver nosso problema se não estiver apoiada por uma série de outras medidas, como reforma do Código Penal, preparação adequada da força policial, aperfeiçoamento do sistema jurídico, reforma do sistema penitenciário – o que iremos fazer com as crianças e os jovens apreendidos. E, ainda assim, todo esse conjunto não passará de solução imediata, paliativa. Porque continuaremos com a sementeira produzindo, em grande escala, novos marginais e bandidos, nas favelas, sob as pontes, nas ruas, tanto pela falta de sensibilidade e de investimento maciço do poder público na educação, na infraestrutura, na saúde, na integração social; quanto pela indiferença da sociedade em relação a sua responsabilidade com todas as crianças, na família, na vizinhança, na rua, onde quer que elas estejam. E, numa análise mais abrangente, faz-se necessária e também urgente a revisão de todos os nossos códigos e leis, que envolvem o conjunto de deveres e responsabilidades dos adultos (maior idade), pais, com relação à natalidade, à estrutura familiar, à educação e ao acompanhamento de seus filhos.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Relembrando...


Busca no tempo

Estudo e reflexão como base de construção da realidade existencial na busca do desenvolvimento integral do ser, integrando-se ao meio nas dimensões pertinentes a sua situação cósmica.

A libertação dos fundamentos e dos princípios que até o momento nortearam o processo evolutivo passa a constituir atitude essencial e primeira a quem visa ampliar o campo de percepção do Universo natural onde existe, como constituinte e participante.

Conscientizar-se dos valores reais daqueles princípios e fundamentos, em vez de desprezá-los simplesmente – a despeito da real impossibilidade de fazê-lo – dentro do processo de assimilação e aprendizado, deve ser a iniciativa do indivíduo equilibrado e já desperto pelo magnetismo do Poder Criador, com as sementes do saber em germinação.

A busca requer um selecionamento com critério e discernimento, distantes do preconceito e dos ditames do tabu, em meio à infinidade de informações, descobertas, doutrinas filosóficas e conceitos religiosos, evoluções científicas e metafísicas, campo fértil e rico de preciosidades aguardando o hábil buril ou cinzel para a estética e o brilho das pérolas de luz.

Ser capaz de viver em equilíbrio no campo de forças que é o habitat de cada um e, ainda mais, fora dele, nas oportunidades de expansão no espaço e no pensamento, demanda aprendizado e adaptação. Isto para quem vive passivamente, pois para o ser criativo, dinâmico, pesquisador, descobridor – características próprias do homem – o processo extrapola os limites da adaptação e leva-o a utilizar os recursos a seu dispor, por meio da percepção e da análise, exercícios de aplicação de teorias e conceitos, formulação de leis e normas de comportamento que o farão evoluir nos variados campos de abrangência do espírito: a moral, a ética, a ciência, a religião.

O princípio fundamental é desenvolver o método da adaptação, do aprendizado e da evolução. No período que compreende a infância e a adolescência, o homem sofre este processo naturalmente, sob as influências do meio físico, social e psíquico, numa interação da própria personalidade espiritual definida para a nova experiência na matéria, ocorrendo a troca constante dessas influências na delienação da personalidade e do caráter resultantes.

Luiz Teodoro – 1994 (num exercício com as ideias)



Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? 

Caminhando lentamente, movido pelo impulso de ir sempre em frente.
De modo espontâneo ou, quase sempre, na compulsão de forças desconhecidas, vencido ou vencedor, paulatinamente se vai construindo a história.

Sem uma situação definida no tempo e no espaço, quantas vezes não foi preciso voltar, perscrutando referências nas lucubrações e reminiscências, ou na própria história: ciência, religião, filosofia, qualquer instrumento que deixasse antever a origem para descortinar o fim.

No misto de curiosidade e medo, mergulhando no desconhecido, da observação à sensação, nem sempre eram as respostas, mas o desequilíbrio que vinha retardar a marcha. De engano a engano, acertos raros, ansiava pela claridade exterior, na aventura de conhecer, esquecendo, contudo, de acender a própria luz.

O Universo sem limites, certamente, contém aqueles que nos precederam e que foram mais bem-sucedidos. Deles se pode absorver o brilho de saber e conhecer. Empreender a viagem ao interior, sob o clarão da luz que desprendem, enseja
probabilidade maior de consciência.

É preciso estimular o intelecto a partir da teoria, da prática e da estética, investigando no uso da razão em harmonia com o sentir, sintetizando o equilíbrio de ambos, destilando a sabedoria, sob a tutela da espiritualidade – eis a fórmula para equacionar os enigmas da realidade e responder ao anseio de viver.

Mas o ser não é só. Interage, influencia e reage. Informa-se, se comunica e se forma. Ações individuais e coletivas que requerem sinergia e harmonia com a regência cósmica.

O ego e o alter, vencendo a antagonia, devem convergir para o equilíbrio do indivíduo e o Todo. O indivíduo no Todo.

Devo seguir. Participando. Dando e recebendo. Trabalhando e construindo. Errando e acertando. Investigando e conhecendo. Servindo e amando. Sempre. Até que consiga fechar o círculo, unindo o princípio e o fim. E ser feliz.

                              Luiz Teodoro – São Paulo, 20 de março de 1998.